quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Cana certificada já é realidade

Agricultores e usina de Bariri (SP) modificam sistemas para produzir, a partir de 2009, o álcool 'politicamente correto'

Chico Siqueira - O Estado de S.Paulo

 

Cana da Associação de Bairi deve respeitar critérios sociais e ambientais
Dida Sampaio/AE

Cana da Associação de Bairi deve respeitar critérios sociais e ambientais

SÃO PAULO - Pequenos e médios produtores de Bariri, região de Jaú (SP), serão os primeiros do País a fornecer cana-de-açúcar certificada para a fabricação do álcool, já na safra 2009/2010. A produção deverá ser de 36 milhões de litros, parte deles possivelmente exportada para a Europa. Baseada num protocolo de gestão de normas agrícolas, sociais e ambientais adotado pela Associação dos Fornecedores de Cana da Região de Bariri (Assobari), a certificação abrangerá 4 mil hectares de cana, cultivada por 50 produtores, muitos agricultores familiares.  

A partir de maio, eles começam a fornecer para a usina Della Coletta, de Bariri, 400 mil toneladas de cana certificada para a produção de 36 milhões de litros de álcool, processado dentro das exigências nacionais e internacionais de sustentabilidade. O protocolo foi possível a partir de uma parceria entre a Assobari, o Sebrae, a certificadora Organização Internacional Agropecuária (OIA) e a Usina Della Coletta.

Trabalho coordenado

Os produtores seguem as normas de um sistema socioambiental introduzido pela OIA; o Sebrae fornece técnicos e cursos de qualificação e a usina processa e vende o álcool, tudo sob auditoria. O resultado final deverá ser um álcool diferenciado, com mais valor agregado e, futuramente, com maior preço de mercado e lucros divididos entre todos.

"Antecipamos as exigências européias para comprar o álcool brasileiro. Estamos comprovando que o Brasil pode ter um álcool sustentado, ao contrário do que foi apregoado no exterior", diz o presidente da Assobari, Fernando César Gregório. Ele explica que, além da parceria, o projeto só foi possível porque há cinco anos os produtores associados vêm perseguindo e cumprindo a legislação ambiental e de segurança no trabalho. "Com isso, foi mais fácil adotar a gestão de qualidade nas propriedades."

Segundo Gregório, a gestão prevê a introdução de boas práticas agrosocioambientais, que vão desde preparo do solo e preservação ambiental, passando pelo plantio e pela colheita até o acompanhamento final do produto a ser processado e vendido pela usina.

"Mais do que certificar, o nosso sistema ensina aos produtores como devem ser as mudanças na propriedade e a maneira de conduzir as atividades para cumprir as normas socioambientais brasileiras e internacionais", diz o diretor da OIA, Edegar de Oliveira Rosa. As práticas também tiveram de ser adotadas na própria Assobari, com novas técnicas de administração e de pessoal.

Readequeção

A usina também se adaptou. O diretor-superintendente da usina, Roberto Della Coletta, diz que foi preciso readequar o controle ambiental e a gestão administrativa conforme o protocolo. "Na parte ambiental, foram R$ 10 milhões para destinação correta da vinhaça e mais R$ 2 milhões para reaproveitamento de água", diz.

O protocolo também prevê, na usina, uma auditoria para acompanhar o recebimento e processamento da cana e a fabricação e comercialização do álcool produzido. "Mas o mais importante foi o relacionamento estreito entre indústria e fornecedores, essencial para o sucesso do projeto", diz Coletta.

Na última terça-feira, Coletta se reuniu com compradores internacionais interessados no álcool sustentado. "Estamos em contato com certificadoras internacionais, sobretudo da Europa." Neste ano, a usina exportou 4 milhões de litros de álcool. Para a próxima safra, deve exportar 7 milhões de litros, sendo 4 milhões de álcool sustentado. Segundo o usineiro, dos 2 milhões de toneladas de cana que a usina vai processar na próxima safra, 400 mil toneladas serão certificadas. Na safra deste ano, a Coletta processou 1,7 milhão de toneladas, sendo 900 mil fornecidas pela Assobari, 700 mil de plantio próprio e 100 mil de produtores independentes.

Agricultor deve virar administrador

Registro de todos os custos e atividades realizadas na fazenda é uma das vantagens da certificação

João Foloni: 'certificação ajudou na preservação de matas'
Tuca Melges/AE

João Foloni: 'certificação ajudou na preservação de matas'

SÃO PAULO - Para chegar ao álcool sustentado, os produtores cumpriram mais de 300 exigências de boas práticas ambientais, agrícolas, administrativas e sociais. As mudanças estão presentes na administração rural, com planilhas de custos, registros de volume de aplicação de agrotóxicos, fertilizantes e adubos, uso de máquinas e pessoal, e mapas de localização física georreferenciada.

A mão-de-obra também mudou, pois os trabalhadores têm de ser qualificados - o Senar e Sebrae são responsáveis por isso, por intermédio de convênios - e a propriedade deve cumprir exigências sociais, como destinar convênios de saúde, ceder moradias, além de respeitar as normas de segurança e as obrigações trabalhistas. Atualmente, 62 famílias cultivam cana certificada.

Na parte agrícola, as propriedades adotam medidas ambientais, como preparo e manejo de solo e controle da erosão, proteção de fontes e nascentes, reflorestamento de mata ciliar e rotação de culturas. Ainda no campo, introduziram-se técnicas de aplicação de agrotóxicos, fertilizantes e adubos e destinação correta das embalagens, além de construção correta de curvas de nível, talhões e carreadores. Detalhe: cada propriedade teve de construir ou adaptar um depósito específico para armazenar agrotóxicos.

Segundo os técnicos da Assobari e da OIA, a nova situação mudou o perfil das propriedades. "O produtor está se transformando num administrador", diz o agrônomo José Reinaldo Schiavon, responsável pela gestão agroambiental e também canavicultor, mostrando as planilhas de duas propriedades, que juntas, têm 22 hectares de cana certificada.

"No meu caso o protocolo ajudou na preservação de áreas naturais", diz João Batista Foloni Filho, que deve colher em agosto 64 hectares de cana certificada. Ele explica a sua opção: "A certificação é o futuro; se quisermos continuar produzindo terá de ser assim." A grande vantagem da certificação é que o agricultor terá um "produto diferenciado" e "um controle maior da propriedade". Outro destaque da fazenda é a área de mata ciliar. "Cana e mata convivem harmoniosamente", diz.

A preservação da flora também é respeitada na Estância Bodoquena. "Fiz questão de isolar a área de mata", afirma Acácio Masson Filho. Ele fechou com uma cerca o acesso à mata, que fica próxima à plantação de 233 hectares de cana que pretende colher entre junho e agosto.