quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
Cana certificada já é realidade
Agricultores e usina de Bariri (SP) modificam sistemas para produzir, a partir de 2009, o álcool 'politicamente correto'
Chico Siqueira - O Estado de S.Paulo

A partir de maio, eles começam a fornecer para a usina Della Coletta, de
Bariri, 400 mil toneladas de cana certificada para a produção de 36 milhões de
litros de álcool, processado dentro das exigências nacionais e internacionais de
sustentabilidade. O protocolo foi possível a partir de uma parceria entre a
Assobari, o Sebrae, a certificadora Organização Internacional Agropecuária (OIA)
e a Usina Della Coletta.
Trabalho coordenado
Os produtores
seguem as normas de um sistema socioambiental introduzido pela OIA; o Sebrae
fornece técnicos e cursos de qualificação e a usina processa e vende o álcool,
tudo sob auditoria. O resultado final deverá ser um álcool diferenciado, com
mais valor agregado e, futuramente, com maior preço de mercado e lucros
divididos entre todos.
"Antecipamos as exigências européias para comprar
o álcool brasileiro. Estamos comprovando que o Brasil pode ter um álcool
sustentado, ao contrário do que foi apregoado no exterior", diz o presidente da
Assobari, Fernando César Gregório. Ele explica que, além da parceria, o projeto
só foi possível porque há cinco anos os produtores associados vêm perseguindo e
cumprindo a legislação ambiental e de segurança no trabalho. "Com isso, foi mais
fácil adotar a gestão de qualidade nas propriedades."
Segundo Gregório,
a gestão prevê a introdução de boas práticas agrosocioambientais, que vão desde
preparo do solo e preservação ambiental, passando pelo plantio e pela colheita
até o acompanhamento final do produto a ser processado e vendido pela usina.
"Mais do que certificar, o nosso sistema ensina aos produtores como
devem ser as mudanças na propriedade e a maneira de conduzir as atividades para
cumprir as normas socioambientais brasileiras e internacionais", diz o diretor
da OIA, Edegar de Oliveira Rosa. As práticas também tiveram de ser adotadas na
própria Assobari, com novas técnicas de administração e de pessoal.
Readequeção
A usina também se adaptou. O
diretor-superintendente da usina, Roberto Della Coletta, diz que foi preciso
readequar o controle ambiental e a gestão administrativa conforme o protocolo.
"Na parte ambiental, foram R$ 10 milhões para destinação correta da vinhaça e
mais R$ 2 milhões para reaproveitamento de água", diz.
O protocolo
também prevê, na usina, uma auditoria para acompanhar o recebimento e
processamento da cana e a fabricação e comercialização do álcool produzido. "Mas
o mais importante foi o relacionamento estreito entre indústria e fornecedores,
essencial para o sucesso do projeto", diz Coletta.
Na última
terça-feira, Coletta se reuniu com compradores internacionais interessados no
álcool sustentado. "Estamos em contato com certificadoras internacionais,
sobretudo da Europa." Neste ano, a usina exportou 4 milhões de litros de álcool.
Para a próxima safra, deve exportar 7 milhões de litros, sendo 4 milhões de
álcool sustentado. Segundo o usineiro, dos 2 milhões de toneladas de cana que a
usina vai processar na próxima safra, 400 mil toneladas serão certificadas. Na
safra deste ano, a Coletta processou 1,7 milhão de toneladas, sendo 900 mil
fornecidas pela Assobari, 700 mil de plantio próprio e 100 mil de produtores
independentes.
Agricultor deve virar administrador
Registro de todos os custos e atividades realizadas na fazenda é uma das vantagens da certificação

A mão-de-obra também mudou, pois os trabalhadores têm de ser qualificados - o Senar e Sebrae são responsáveis por isso, por intermédio de convênios - e a propriedade deve cumprir exigências sociais, como destinar convênios de saúde, ceder moradias, além de respeitar as normas de segurança e as obrigações trabalhistas. Atualmente, 62 famílias cultivam cana certificada.
Na parte agrícola, as propriedades adotam medidas ambientais, como preparo e manejo de solo e controle da erosão, proteção de fontes e nascentes, reflorestamento de mata ciliar e rotação de culturas. Ainda no campo, introduziram-se técnicas de aplicação de agrotóxicos, fertilizantes e adubos e destinação correta das embalagens, além de construção correta de curvas de nível, talhões e carreadores. Detalhe: cada propriedade teve de construir ou adaptar um depósito específico para armazenar agrotóxicos.
Segundo os técnicos da Assobari e da OIA, a nova situação mudou o perfil das propriedades. "O produtor está se transformando num administrador", diz o agrônomo José Reinaldo Schiavon, responsável pela gestão agroambiental e também canavicultor, mostrando as planilhas de duas propriedades, que juntas, têm 22 hectares de cana certificada.
"No meu caso o protocolo ajudou na preservação de áreas naturais", diz João Batista Foloni Filho, que deve colher em agosto 64 hectares de cana certificada. Ele explica a sua opção: "A certificação é o futuro; se quisermos continuar produzindo terá de ser assim." A grande vantagem da certificação é que o agricultor terá um "produto diferenciado" e "um controle maior da propriedade". Outro destaque da fazenda é a área de mata ciliar. "Cana e mata convivem harmoniosamente", diz.
A preservação da flora também é respeitada na Estância Bodoquena. "Fiz questão de isolar a área de mata", afirma Acácio Masson Filho. Ele fechou com uma cerca o acesso à mata, que fica próxima à plantação de 233 hectares de cana que pretende colher entre junho e agosto.