16/12/2008

Rita de Cássia Cornélio

Bariri - Produtores de cana-de-açúcar, usina Della Colleta, Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de São Paulo (Sebrae) e Organização Internacional Agropecuária (OIA) se uniram para produzir um etanol que atenda as exigências do mercado europeu. O álcool “politicamente correto” começa a ser processado na próxima safra e deve mudar a vida não só dos produtores e usineiro, mas do trabalhador rural. O trabalho encabeçado pela Associação dos Fornecedores de Cana da Região de Bariri (Assobari) é pioneiro no Brasil e muito possivelmente no mundo.

O trabalho de certificação começou há quase cinco anos e os “primeiros frutos” deverão ser colhidos na safra 2009/2010. O protocolo de exigências inclui 300 itens que vão desde o momento em que a semente cai no solo até o álcool ser embarcado no porto de Santos de onde deve “viajar” para o mercado europeu.

As negociações entre a Usina Della Colleta e os empresários europeus estão bem adiantadas, garante o diretor superintendente da usina, Roberto Della Coletta. “Vamos receber a visita de um pessoal interessado em conversar sobre a compra do álcool corretamente sustentável. Nós conversamos com eles na Capital e ele virão nos visitar.”

Segundo ele, o mercado europeu exige que seja um álcool sustentável por isso é necessário que o produto seja certificado pela OIA.

O superintendente ainda não sabe qual o preço a ser praticado no mercado europeu. “Hoje esse álcool ainda não vale mais no mercado. O que a gente está querendo é realmente mostrar que existe o álcool certificado e que a gente pode conseguir mercado na Europa mesmo com todas as restrições feitas por eles.”

Colleta explica que atender as especificações foi o objetivo do grupo que encampou a idéia. “Nós vamos oferecer o certificado para eles. Vamos garantir que a produção seja feita obedecendo às regras trabalhistas e ambientais.”

Para adequar a usina às normas que regem à certificação, Colleta teve que investir cerca de R$ 10 milhões, nos últimos anos. “Modificamos o sistema de destinação da vinhaça que recebeu um investimento de R$ 10 milhões. A vinhaça vai agora para a irrrigação da lavoura da cana.”

Outros R$ 2 milhões foram gastos para fazer o reaproveitamento da água dentro da usina. “Isso diminui a água a ser captada. Reaproveitamos a água e só fazemos reposição da quantidade que evapora durante o processo.”

Boas práticas

As exigências abrangem áreas diferentes, conforme explica Fernando Gregório presidente da Assobari. “Para ser incluído o agricultor teve que apresentar documentos que comprovassem a propriedade e escritura. O protocolo é agro sócio ambiental porque contempla a parte agrícola, ambiental e social.”

Em benefício do meio ambiente, os produtores têm que fazer a reconstituição da mata ciliar, da fauna e flora dentro das propriedades, reflorestamento, plantio de árvores de tal forma que seja correto ambientalmente. Além da proteção de minas e nascentes.”

A análise do solo, o combate a erosão e a utilização correta de adubos e defensivos agrícolas são alguns dos itens das boas práticas agrícolas.

Na área social, os trabalhadores têm que preencher todos os requisitos da segurança e saúde do trabalho. “Os produtores terão que oferecer treinamentos para uso de equipamentos e dos defensivos, exames periódicos, laudos técnicos de segurança do trabalho e equipamentos.”

Na aplicação de herbicidas, por exemplo, o trabalhador terá que conhecer não só o equipamento como também o produto a ser usado. “Se a propriedade tem um trator, o trabalhador terá que usar o equipamento correto. Na aplicação de herbicida terão que usar macacão de proteção, luva, óculos e protetor de ouvido.”

A colheita da cana será mecanizada, lembra o presidente da Assobari. “Obedecerá uma programação.”


 

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Assobari ‘abraçou’ a idéia

O protocolo, que está em fase de acerto dos últimos detalhes, é o primeiro do Brasil e, possivelmente do mundo, segundo o presidente da Assobari. “No Brasil somos pioneiros. O pessoal da Inglaterra, Alemanha e Portugal disseram que somos o primeiro do mundo, até porque não só em relação ao cumprimento das exigências nacionais e internacionais, mas também pelo acordo com a OIA e com a usina.”

A expectativa de produção é de 400 mil toneladas de cana a ser fornecida para a usina. O produto deverá gerar 36 milhões de litros de álcool combustível sustentável, a partir de maio de 2009.

São 50 pequenos produtores, alguns familiares que durante todo o período de quase cinco anos fizeram um investimento em torno de R$ 1 milhão. “É uma cadeia de custódia que permite a rastreabilidade, inclusive toda a gestão documental certificada por engenheiros e profissionais que trabalham através dessas parcerias.”

Segundo Gregório, desde do momento que a semente da cana cai no solo até entregar o etanol no porto, incluindo a usina, tudo foi informatizado. “Podemos saber de quem é a cana, qual o herbicida, quando essa cana foi colhida, quando entrou na usina e foi processada e o álcool saiu.”

Os produtores tiveram que seguir as normas de um sistema sócio ambiental introduzido pela OIA. O Sebrae ficou com a responsabilidade de qualificar os produtores, oferecendo curso de qualificação e treinamentos, explica o presidente. “Todos os itens têm que ser cumpridos. Não há um mais importante que o outro. O resultado deverá ser um álcool com valor agregado que poderá ter um preço maior."